Daniela Barros

O percurso trilhado por um profissional, passo após passo, expressa características, pontos de vista, paixões, aprendizados e inúmeras particularidades que compõe a sua integridade e expertise. Ao escrever esses textos revisitei minha história e redescobri em detalhes, por meio de relatos, experiências, fatos e conquistas, cada faceta desse caminho.

Formação e primeiros passos

Sou natural de Rio Grande, no estado do Rio Grande do Sul, me graduei em Farmácia e Bioquímica pela Universidade Católica de Pelotas em 1984. Iniciei a carreira como professora de Ciências e Biologia em supletivos na minha  cidade natal e, concomitante às primeiras experiências como docente, assinei ao longo deste período a carteira de trabalho em farmácias locais e hospitais.

Vinculada ao Hospital de São José do Norte desde 1986, conquistei uma oportunidade de trabalho no Hospital de Ensino em Rio Grande no ano de 1988. Assinava como farmacêutica bioquímica, envolvida diretamente com as alas laboratoriais em um Hospital de Ensino. No ano seguinte, em 1989, fui aprovada em primeiro lugar como Técnica de Laboratório do Departamento de Ciências Fisiológicas da Universidade Federal do Rio Grande (FURG). Essas conquistas demarcaram o início de uma nova etapa de carreira, que me levariam ao curso de especialização latu sensu de Práticas em Ciências Fisiológicas 1992/1993, e a ingressar no corpo docente da FURG em 1993 como professora auxiliar de Bioquímica.

Construindo o próprio caminho

Plano de voo

Após 10 anos de atuação em práticas diversas, inicia-se uma nova etapa na minha carreira. Optei por trilhar um plano de voo na academia. Por dois anos ministrei disciplinas para cursos de graduação da área da saúde, como medicina e enfermagem. Já melhor ambientada na Universidade, vislumbrei desafios maiores, transferindo-me temporariamente a Porto Alegre para cursar o mestrado em Ciências Biológicas na Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS).

Pesquisa Científica

Em um período histórico em que ainda poucas mulheres buscavam formação de ponta em grandes centros, com pesquisadores de renome e estruturas robustas, agora Mestre, tomei uma atitude contra a corrente daquele contexto: bati à porta do laboratório de um dos maiores neurocientistas em âmbito internacional, Dr. Ivan Izquierdo, para lhe pedir que fosse sua orientanda de doutorado. E fui aceita!


Durante os quatro anos de pesquisa junto à equipe do Dr. Izquierdo, iniciou-se um novo momento quanto a produção científica. Já no segundo ano de doutorado, um artigo na qual fui coautora foi publicado na revista Nature, dentre as mais reconhecidas a nível mundial.


Defendi minha tese em janeiro de 2001 perante a banca, familiares e amigos, conquistando a nota máxima, “A” com louvor, segundo a avaliação técnica da banca. A partir deste momento, estava pronta para um próximo passo de carreira, o ingresso no Programa de Pós Graduação (PPG) da FURG, em Rio Grande, desenvolvendo o conhecimento científico e formando pesquisadores.

De volta

à casa

Após seis anos imersa nas estruturas da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS), retorno às  origens, mas com outra bagagem e responsabilidades. Logo nos primeiros anos, criei junto ao corpo docente da FURG o LabNeuro, um laboratório de pesquisas com foco em neurociências.


Com a nova estrutura, passei a submeter regularmente editais aos principais órgãos de fomento científico do país, como o CNPq (Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico), a Capes (Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior) e FAPERGS (Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado do Rio Grande do Sul). A experiência me  proporcionou domínio dos processos de captação de recursos, formulando projetos consistentes e enquadrados dentro dos parâmetros orçamentários exigidos.


Com o tempo, as conquistas de investimento tornaram-se cada vez mais frequentes. Aliado a isso, as respectivas prestações de contas sempre dentro dos padrões, elevavam a respeitabilidade do LabNeuro ano a ano. Efetivamente, esse conjunto de fatores possibilitou o estudo e a prática das linhas de pesquisa do laboratório. Desde o acesso a compra de materiais a bolsas de iniciação científica, mestrado e doutorado, uma equipe, ligada a uma paixão em comum, passou a ser formatada.

Docência e Formação de ponta a ponta

As novas funções de trabalho adquiridas ao logo do desenvolvimento da carreira me aproximaram ainda mais da sala de aula, pois essa paixão sempre me acompanhou. Coordenadora da disciplina de Farmacologia, ministrei ainda cadeiras como bioquímica e neurociências durante a  jornada na academia para alunos dos cursos de medicina, enfermagem e psicologia.


A atuação como docente para jovens no nível superior e a expressão crescente do LabNeuro na Universidade chamava a atenção de estudantes para estágios de iniciação científica no laboratório. Muitos seguiram a trajetória formativa no Instituto de Ciências Biológicas, e pouco a pouco as  linhas de pesquisa ganharam corpo com diversas publicações e citações, além de um estreitamento de relações com diversas abordagens, departamentos e institutos do próprio Campus.


Na medida em que o número de alunos orientados aumentava, novas portas se abriam em proporção exponencial pelo Brasil e o mundo. A presença constante em congressos da área e a profundidade científica das pesquisas me oportunizaram o ingresso em redes nacionais e internacionais de ensino e pesquisa, como o INCT (Instituto Nacional de Ciência e Tecnologia – Nanomateriais de Carbono,) e a Rede Nacional Ciência para Educação, da qual faço parte do grupo de pesquisadores fundadores.

Maturidade e Novos Passos

Muitas vezes costuma-se destacar majoritariamente aspectos técnicos de uma carreira acadêmica. Contudo, neste momento da minha trajetória profissional houve uma série de compreensões e aprendizados de caráter humano. Tão importante quanto criar linhas de pesquisa, preparar aulas e executar processos metodológicos com excelência; o olhar para as pessoas, sociedade e mercado ganhou para mim uma sensibilidade empática mais apurada. 


Se, no início da minha caminhada galgar títulos e espaços apresentava-se como um estímulo latente; cuidar do todo, de cada um que estava ligado direta ou indiretamente à minha atuação, passou a nortear ainda mais o meu agir. Ao retornar para Rio Grande após a conclusão do doutorado a meta era qualificar a formação universitária e desenvolver a produção científica da FURG. Consolidado este passo e tendo, com o tempo, a presença reconhecida na academia, restringir-se aos papeis de origem já parecia pouco. Era preciso mais. Era preciso levar o conhecimento além, aproximando-o da sociedade.

Neurociências e Educação

 

Primeiros passos

Em 2010, de forma inesperada, surgiu uma fértil parceria de trabalho com a Dr.ª Fernanda Antoniolo Hammes de Carvalho, pesquisadora de grande profundidade teórica e compreensão do universo da educação. Juntas, conectamos saberes e, num momento de relevante volume de debates e reflexão no âmbito político, econômico, jornalístico e acadêmico sobre os rumos do ensino no Brasil, levantamos a bandeira de estudo, formação e divulgação científica da Neurociência e Educação


Realizamos na FURG três seminários com a temática Neurociências e Educação em 2010, 2014 e 2016, respectivamente. A fim de oportunizar a formação continuada de professores da rede pública e privada de educação básica do Rio Grande do Sul, cada evento contou a participação de personalidades e especialistas no assunto, possibilitando a abordagem e troca de saberes para um total de 1000 professores. 


No intuito de promover um diálogo integral com todos os públicos, foram realizados três edições de um outro projeto de extensão universitária voltado a crianças e adolescentes do munícipio e arredores: o 1º, 2º e o 3º NEUROEDUCA: compreendendo como o cérebro funciona, em 2011, 2012 e 2013, respectivamente.

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