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  • Daniela Barros

Roda de conversa com educação, neurociências e psicologia



Sou educadora há mais de 30 anos, comecei minha trajetória como professora de Ciências no curso Supletivo de 1º grau (hoje EJA). Desde então me apaixonei pela sala de aula, segui carreira acadêmica na Universidade Federal do Rio Grande (FURG) ministrando as disciplinas de neurociências e farmacologia. Me aposentei há dois anos e continuo atuando como educadora (acho que isso a gente é sempre!). Nos últimos anos me aproximei da psicologia, das terapias contextuais, mais especificamente da Terapia Dialética Comportamental (sigla do inglês DBT). Surge então uma reflexão: como a psicoeducação, baseada em dados científicos advindos das pesquisas em neurociências e psicologia, conversa com o processo educacional, formal e informal?


Ao adentrar nos conceitos e treinamento de habilidades da DBT conheci a Teoria Biossocial, proposta por Marsha Lineham, professora de Psicologia, Psiquiatria e Ciências Comportamentais, que atualmente trabalha na Universidade de Washington. A Teoria Biossocial tem como base a interação entre a vulnerabilidade biológica (algumas pessoas são mais sensíveis do que outras) e um ambiente invalidante produzindo desregulação emocional. Ambiente invalidante com frequência ignora reações emocionais, parece não compreender as emoções, classificando-as como ruins, erradas ou estranhas.


Temos uma tendência a invalidar os outros, muitas vezes não sabemos como validar ou o quanto é importante validar. Talvez já tenha acontecido com vocês de, ao ver uma criança cair e esfolar o joelho ao vir pedir ajuda chorando, alguém dizer que não é nada, que já vai passar. Infelizmente, uma total invalidação, pois a criança está com dor, assustada com o sangue escorrendo...e ao dizer que “não é nada” há, ainda que não intencionalmente, uma desconsideração de suas emoções.


A validação é um ato de profunda aceitação das respostas emocionais do outro, sem juízos, sem conselhos e sem intenções de mudar. Para validar alguém não é preciso dizer nada. Validar alguém faz o outro se sentir amado, valorizado, querido, pertencente.


Se por um lado como educadores, infelizmente, cometemos gafes, nos enganamos, temos reações inapropriadas que podem marcar a vida dos nossos alunos, por outro lado são muitas as oportunidades que experimentamos de escuta sincera, sem esperar nada, olhares profundos que mudam nossas vidas. Sim, “nossas” vidas, a educação é um processo bidirecional, ainda que assimétrico, que pode ser inclusive “medido”.


Um trabalho recente de um grupo de cientistas brasileiros coordenado por Guilherme Brockington e João Sato, da Universidade Federal do ABC (UFABC), demonstrou através do hiperescaneamento (utilização da técnica de registro chamada espectroscopia funcional de infravermelho próximo - fNRIS) da interação entre uma criança e sua professora, durante a realização de operações matemáticas por meio de um jogo, que em determinado momento da realização da tarefa há uma sincronia de atividade neuronal entre os dois cérebros (da criança e da professora).


Nós educadores, por vezes, temos poucas fontes de apoio, informações inadequadas, acesso escasso às habilidades para somarem-se ao amor, compaixão e preocupação que sentimos por nossos alunos. Por isso, tenho a nítida impressão que quanto mais conversarmos entre as searas da educação, neurociências e psicologia mais rico pode se tornar o processo educacional.



Para saber mais:

Brockington G, Balardin JB, Morais GAZ, Malheiros A, Lent R, Moura LM, Sato JR. From the laboratory towards the classroom: the potencial of fNIRS and physiological multirecordings in educacional neuroscience. Frontiers in Psychology 9:1840, 2018.


Linehan M. Treinamento de Habilidades em DBT: manual de terapia comportamental dialética para o paciente. 2º ed, ARTMED, Porto Alegre, 2018.




Dra. Daniela Martí Barros

Pesquisadora, professora e palestrante


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