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  • Daniela Barros

Lembrando da memória



Você conhece alguém que tenha ido ao médico para dizer que tem ótima memória? Via de regra costuma-se “lembrar” da memória quando ela está falhando.


Convido você, leitor, a fazer um breve exercício. Feche os olhos durante dez segundos e recorde alguma coisa agradável de sua infância. Lembrou talvez de uma brincadeira no parque, do cheiro do bolo de chocolate, das férias de verão na casa dos avós, de jogos na escola... Provavelmente você reviveu momentos importantes e os associou a tantos outros. Agora convido-o a recordar o que você almoçou há doze dias. Se o seu almoço de doze dias atrás não foi uma data comemorativa ou você não passou mal, é muito provável que você não vá lembrar mesmo. Fique tranquilo, lembramos de memórias que estão associadas a emoções, as demais tendem a ser esquecidas. Ainda bem, pois não somos um repositório de informações. Embora existam indivíduos que retém a memória em detalhes, esses não apresentam uma melhor cognição e ainda a riqueza de detalhes pode prejudicar a sua vida diária.


Será que você já se perguntou onde está a memória? A resposta mais imediata é no cérebro, mas onde? Em algum local específico, em vesículas, em moléculas ...

Nosso cérebro possui aproximadamente oitenta e seis bilhões de neurônios. Para que haja os processos de aprendizagem, armazenamento de informações, tomada de decisões, os neurônios se “organizam” em redes. Em resposta à pergunta: onde está nossa memória? Está na estabilização de redes neurais. Quando há o aprendizado, ou a vivência de situações e fatos que possuam um conteúdo emocional relevante essas redes neurais se ativam e se fortalecem por meio de processos neuroquímicos que promovem alterações estruturais e funcionais nos neurônios que a compõem. É como se a rede neural antes de ser estimulada fosse um texto em letras comuns e depois de estimulada passasse a ser um texto em negrito. Esse processo chama-se plasticidade neuronal. Assim, nosso cérebro está em constante mudança, adaptando-se a cada demanda.


Quando mais aprendizado, mais redes neurais são ativadas, por outro lado, perde-se muitas conexões por desuso. As redes neurais que são pouco ativadas acabam se desfazendo, isto não é igual à perda neuronal, são as conexões que se desfazem.


Ao longo da vida a memória “enfraquece”, isso é fisiológico, faz parte da nossa existência. Quantas vezes acontece de estar diante de alguém que é familiar e há o esquecimento do nome dessa pessoa, ou de algum lugar e momentos depois vem a nossa memória. Essa perda se acentua depois dos cinquenta anos, no entanto, é cada vez maior o número de jovens adultos com déficits de memória. Nesse caso não se trata um envelhecimento precoce, mas a grande demanda da memória de trabalho.


Tendo em vista que a expectativa de vida está cada vez maior, cresce o número de indivíduos longevos. Com certeza o que mais se almeja é um envelhecimento saudável. Para isso é preciso cuidar do cérebro, especialmente da formação e manutenção das redes neurais. Embora o processo de aprendizagem seja um pouco mais lento na maturidade, aprendemos sempre.


Fala-se hoje de treino e reserva cognitiva. O que vem a ser isso? Basicamente é a prática de novos aprendizados e desafios que mantém e aumentam as redes neurais. A leitura continua sendo umas das melhores formas para intensificar a plasticidade neuronal. Ao ler há o reconhecimento de grafemas, fonemas, o significado do texto, a abstração e imaginação do cenário. Para a execução dessa série de eventos são utilizadas simultaneamente muitas áreas cerebrais que se conectam entre si com muita rapidez.


Igualmente importante é a atividade física, a qual aumenta a produção de neurotrofinas, substâncias que induzem a sobrevivência, desenvolvimento e função neuronal.


Além dessas, existem muitas outras maneiras de aumentar a reserva cognitiva, entre elas a música, tocar um instrumento, dançar, cultivar os relacionamentos sociais, exercer ações de voluntariado.


O importante é identificar atividades aprazíveis, desafiadoras, de acordo com os limites de cada um.


Tenha um ótimo treino cognitivo!



Dra. Daniela Martí Barros

Pesquisadora, professora e palestrante


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